Entrevista com o autor do Mundo Gump
Oktopody
Philipe Kling David é a mente criativa por trás do blog Mundo Gump. Nesta entrevista, Philipe conta sobre os projetos, fala sobre o blog, sua relação com os leitores e outros projetos.
OKTPD – De onde surgiu a ideia para criar o Mundo Gump?
O Mundo Gump surgiu oficialmente num dia de sol inclemente, quando eu subia uma ladeira na companhia de alguns amigos. Um deles era o Brunno Vieira, do blog (na época Virou Kibe e que hoje se chama Virou Zona). Nós estávamos juntos porque íamos visitar uma locação de um – promete que não vai rir? – Filme épico Brasileiro, criado por mim.
O filme acabou não saindo, mas o encontro da equipe foi muito bom, e rende frutos até hoje. O maior desses frutos foi quando o Brunno me disse que eu parecia o Forrest Gump, de tantas histórias malucas e tal. Naquele momento me deu vontade de fazer igual ao Brunno, criar um blog e registrar as histórias. Então, teve um dia que eu estava de bobeira em casa, havia acabado de chegar da minha festa de aniversário, aí eu criei o blog. Na época usei o sistema do Blogspot, porque nem sequer sabia direito o que era um blog. Eu não imaginava que daria tão certo.
OKTPD - Fale um pouco sobre seu processo criativo.
Cara pode parecer estranho, mas muitas das minhas ideias para posts surgem quando eu tomo banho.
Sério. Eu penso melhor no chuveiro. Se eu estiver meio sem ideias para postar, eu simplesmente vou tomar um banho e elas aparecem. É uma coisa meio Chico Xavier (risos). O Chico psicografava, e eu tomo um banho (risos). Mas a inspiração é algo que bate à minha porta a qualquer momento. Uma das situações mais comuns se dá quando eu acordo no meio da noite com uma ideia na cabeça. Ou então, a coisa vai acontecendo. Tem ideia de post que vem pronta. Tem ideia que vai sendo construída.
OKTPD - Por exemplo?
Por exemplo, o conto “O despachante da morte”. Eu sabia apenas que ia escrever sobre um assassino serial. Mas não sabia como isso iria começar, nem como ia acabar. E essa é uma coisa legal de escrever num blog, pois você não fica se prendendo muito, rebuscando muito. Nada contra a coisa do texto rebuscado, muito pelo contrário, eu admiro bastante certos recursos estilísticos. Mas em certos contos eu quero apenas contar a história. Como um pai faz para crianças, sabe?
OKTPD - Falando em pai, como você vê a influência de seus pais na sua vida?
Meus pais foram – e ainda são – grandes influências na minha vida, em diferentes aspectos. Eu me vejo como o produto de duas pessoas muito inteligentes. Meu pai é engenheiro, inventor. Tem um monte de patente que ele inventou. Minha mãe é psicóloga, estuda história da arte. Pintava, atuava, foi também atriz de teatro. Por pouco ela não foi parar na Globo. E ambos escrevem. Minha mãe é melhor com crônicas; meu pai já direciona o estilo mais para novelas, romances mais longos. Minha mãe está fazendo doutorado em História da Arte e meu pai é pós doutor em engenharia de transporte.
Acredito que não são muitas as pessoas que tem a sorte de ter pais como os meus, que incentivaram a leitura desde sempre. Minha mãe sempre fez de tudo para me ajudar com a arte. Foi ela que comprou tintas e pincéis. Ela até fabricava em casa massinha de modelar feita com farinha de trigo para que eu esculpisse. A minha mãe é um fator absolutamente preponderante na minha carreira artística, e todo mundo que a conhece, principalmente os mais chegados, sabem disso. Se não fosse ela, tudo teria sido bem diferente.
Meu pai por outro lado, era aquele cara que sabia tudo. Pelo menos tudo que uma criança pode ter curiosidade de perguntar. Na minha infância, eu não soube o que é perguntar e não ouvir uma resposta detalhada sobre qualquer coisa que fosse. Os meus pais eram o meu Google.
Meu pai sempre foi uma pessoa que eu olhava e desejava ser igual, porque ele sabia coisas que ninguém “normal” sabia. E eu achava isso o máximo. Pra você ter uma ideia, o meu pai me explicou o mito da Caverna de Platão quando eu tinha uns cinco, seis anos. Pode imaginar o que é confrontar uma criança com a possibilidade de o mundo que ele vê não ser a realidade? Se eu fosse Neo, meu pai seria o Morpheus!
Havia também uma coisa forte do ambiente. Meus pais sempre tiveram muitos livros, de vários assuntos. Eles viviam cercados de livros (e ainda vivem) e então, ler era algo natural pra mim. Eles liam de tudo, revista, livros… Após os quadrinhos da Mônica, eu comecei lendo a revista Seleções do Reader Digest, e isso foi uma das coisas que mais mudou minha vida, pois viciei naquele negócio e li tantas revistas, que é impossível de saber quantas eu li. As melhores eram as do tempo da Segunda Guerra Mundial e elas provinham de sebos e de um armário que havia de na casa da minha avó Glorinha.
Outra coisa fundamental é que meus pais conversavam muito e eu ficava prestando atenção. Eu observava como era a conversa, como funcionava. Também tinha uma coisa que eles faziam que julgo muito importante. Foi o ato de contar histórias pra nós. Na época eramos ainda só três meninos. E toda noite, ao longo de anos e anos, meu pai ia de cama em cama e contava três histórias, que ele inventava na hora, uma para cada filho. É verdade que quando chegava na história do André, o caçula, meu pai dava umas dormidas no meio, e ela ficava sempre meio surrealista.
Quando meu pai não podia contar as histórias, minha mãe lia para nós. Eu me lembro dela ler Robson Crusoé, na versão do Monteiro Lobato pra mim e para os meus irmãos.
Outra coisa legal que ela fez foi gravar meu pai contando as histórias. Assim, quando ele viajava a serviço, era o gravador que contava as histórias pra nós.
Entendendo quem são meus pais, é possível perceber que o Mundo Gump é um resultado de certa forma previsível pelo que eles fizeram.
OKTPD - Então há um componente familiar. Como você elabora as histórias que conta?
Eu vou escrevendo e, à medida em que escrevo, é como se eu estivesse vendo um filme. As coisas vão acontecendo e eu vou narrando.
Em alguns casos, eu fico com uma ideia semi-pronta na cabeça, e me recuso a começar até que saiba como ela vai acabar. Faço isso porque muitas vezes é angustiante começar uma história que não sei como será o fim. Temo que ela comece a ficar grande demais, saia do ritmo, e isso afeta diretamente o leitor. Sobretudo se eu postar em capítulos, como certos contos, que faço no estilo de novela. Tem gente que fica lá o dia todo, dando F5 para ver se o post entra, porque uma coisa que eu sempre fiz é não estabelecer uma cronologia fixa, uma regularidade na questão da postagem.
Se você parar para ler o que os gurus falam, vai ver que isso que eu faço é a maior burrice da paróquia, pois “o certo” é ter a regularidade. Isso é um problema pra mim. Aliás, toda e qualquer regularidade me causa problema, porque minha vida não é regular. Tem dia que eu faço seis posts. Tem dia que não faço nenhum. O blog reflete isso. Podem dizer que isso não é profissional, mas veja só, tá dando certo…
OKTPD – E o que é um blog profissional?
Sobre a questão de ser profissional ou não, eu penso que tudo depende da forma como é feito, o quão a sério você encara o blog e como enxerga sua relação com o público nisso tudo. Não é só ganhar dinheiro com o blog.
Por exemplo, tem blog que prima pela impessoalidade. Pessoalmente eu vejo isso como uma coisa que não me atrai. A impessoalidade é o que temos no mundo. E é justamente o que as pessoas não querem! Ninguém gosta de ser tratado como um número. Se gostassem, as pessoas teriam números, não nomes.
Então eu assumo abertamente e passionalmente a minha relação com o meu blog. O blog sou eu. Se eu fico doente, não tem post. Se eu viajo, não tem post. Se eu estou cheio de trabalho, demora para entrar o post.
Agora, o meu leitor sabe que o blog e eu somos um só. E eu encaro o meu leitor como um amigo. Eu costumo responder um a um, sempre que posso. Eu acho que a magia de um blog está justamente em sabermos que atrás daquele layout, php, css, ajax e o escambau a quatro, tem alguém de carne e osso como a gente. Alguém com quem podemos trocar ideias aprender e até mesmo ensinar.
Mas é claro que eu tenho metas. Eu tenho uma meta mental de fazer três posts ao dia. Tem dia que eu faço seis. Tem dia que eu faço até mais. Mas tem dias que não dá pra fazer nenhum. A coisa da disponibilidade depende muito do meu trabalho.
OKTPD - Falando em trabalho, é verdade que você trabalhou com games? Como é trabalhar com jogos?
Trabalhar com jogos é… Bem, guardadas as devidas proporções e abusando um pouco da licença poética eu diria que trabalhar com jogos é como ser ator de filme pornô.
OKTPD - Hã? (risos)
Todo menino já parou para pensar como deve ser bom ser um ator pornô, né? Ficar lá, pegando as mulheres gostosas, fazendo aquilo que todo mundo gostaria de estar fazendo o tempo todo para viver.
aquele lance de “Ê vidinha mais ou menos!” (risos)
Mas na prática, essa é a visão que as pessoas de fora tem, que não corresponde exatamente à realidade. Com games é meio assim. Quem está de fora pensa que o mundo dos criadores de games é só jogar, jogar o dia todo. Mas a verdade é que se trata de trabalho duro, estressante e desgastante. Todo mundo que trabalha com games, trabalha num ambiente de forte cobrança e grande stress. Num mercado super concorrido, onde não há espaço para todo mundo, há uma permanente pressão para cumprir prazos, sob o risco do jogo não sair. A cobrança cresce.Seu trabalho vai afetar diretamente o trabalho de outras pessoas da equipe. Quanto maior o jogo, mais complexo ele se torna.
É claro, que é uma coisa bem legal, pois é um trabalho criativo, tem uma galera interessante no setor, o assunto desperta um enorme interesse, e é fácil fazer amigos neste ramo. Mas verdade seja dita: É trabalho duro! Não é só ficar jogando.
Há também a coisa do mercado instável. O mercado de games no Brasil é pequeno, limitado. As políticas do setor não ajudam, aliás, atrapalham muito esse segmento econômico que lá fora é tão gigantesco que bateu a indústria do cinema.
Então trabalhar com jogo no Brasil é difícil. Mas tem seu lado bom.
OKTPD -Você trabalhou com jogos para que plataforma?
Para Pc inicialmente. Eu fui Lead artist do game Erinia. Um jogo lançado pela Ignis Games, que era um massive multiplayer RPG. Ou seja, um jogo em rede, que cada pessoa da sua casa, criava um personagem e habitava um mundo cheio de monstros, criaturas míticas… O meu trabalho era na parte de arte do jogo. Todo o visual, dos monstros ao ambiente. A empresa era de Curitiba, quando ela veio para o Rio, meu irmão começou a trabalhar lá. Daí eu fui lá e acabei contratado também. Nesse lance da mudança, a equipe de arte do Paraná não veio, e acabou que eu e meu irmão André viramos 100% da equipe de arte do Erinia aqui. Mas aí o Erinia acabou. E depois que acabou passamos a fazer jogos para Xbox e Playstation 2.
OKTPD - Além do blog, o que você faz profissionalmente?
Eu tenho uma empresa de design. Atualmente estou trabalhando com isso. Estamos agora expandindo nossa carteira de clientes. Não focamos na quantidade mas em termos bons clientes. Focamos em relações de longo prazo com os clientes. É uma estratégia que vale a pena num mundo cheio de “clientes” canalhas como o nosso. Antes eu levava uma vida tripla, empresário, blogueiro e bolsista do INT (Instituto Nacional de Tecnologia). Agora que o projeto no qual eu estava locado no Instituto Nacional de Tecnologia acabou, eu posso dedicar mais tempo à Portifolium e ao blog.
OKTPD - E a ufologia?
Eu estou parado com a ufologia. É um assunto que eu gosto muito. Sempre gostei. Aprendi a gostar com meu pai, que também gosta. Meu pai já conversou com pilotos, tem amigos que já viram e tal. Engraçado que é um assunto fascinante, que eu adoro, que eu estudo muito, mas ver mesmo, eu nunca vi. Estive em Varginha, conheci pessoas ligadas diretamente ao mistério da criatura vista lá, fiz umas pesquisas regionais limitadas, escrevi artigos para a Revista Ufo, uma publicação com a qual eu até colaborei com ilustrações 3d.
OKTPD - O “Relato de um Mib” seria um bom exemplo disso?
Certamente. O Relato de um MIB foi uma série de posts. Tipo uma novela. Nessa novela, eu coloquei algumas coisas de ufologia que me contaram, outras eu inventei. O enredo ficou bastante prolífico, explicando por exemplo, por que o PC Farias morreu de forma tão estranha, e o que uma esquadra da Marinha americana fez na costa do Brasil, sem a autorização do Presidente Lula. Além do mais, foi algo que me divertiu bastante, pois foi um grande exercício criativo, que envolveu o estudo de notícias, correlacionamento de fatos científicos isolados e inclusão de dados ufológicos reais numa panela só. Eu coloquei muita coisa ficcional, mas boas doses de dados reais. Dessa mistura emergiu uma história que ficou suficientemente verossímil para que eu recebesse até ameaçadas de morte. Além disso, o lance gerou uma bela confusão. Eu chamo o rolo que deu de “o legado do Juca”.
OKTPD – Pode falar um pouco sobre a tal “confusão do alien”?
É difícil de resumir tudo que aconteceu, porque o “Relato de um Mib” não foi um conto apenas. Foi uma série sucessiva de contos interligados. E ele, ao contrario de tudo que se faz, seja filme, game ou livro, não saiu de uma vez. Foi acontecendo, no tempo da realidade. Isso aumentou o realismo da história.
Basicamente, a coisa começou quando eu fiz uns modelos 3d de aliens mortos. Eu tirei foto com meu celular da tela e fiquei surpreso ao ver que na foto do celular ele tinha ficado bem mais real. Então eu baixei a foto que eu tirei para o Pc e nele resolvi postar os aliens no blog. Mas eu não queria colocar simplesmente o alien no blog. Por isso, eu construí uma espécie de email de um agente, membro de uma organização militar que contava ter matado os aliens numa operação no interior do Maranhão.
Muita gente ficou intrigada com o alien morto e sua história. Algum sacana pegou o texto, mudou algumas coisas e postou em dezenas de comunidades de ufologia do orkut. Isso me chateou e eu decidi que não ia mais fazer aquilo.
Um bom tempo depois, cerca de oito meses depois daquele post, eu me peguei pensando se devia bloquear minha criatividade por causa do episódio do roubo do meu post. decidi continuar. Então, eis que coloco uma novidade bombástica: havia um terceiro alien, que estava vivo escondido no Brasil. O meu agente-interlocutor, um tal de Vortex, contava detalhes, não só biológicos da criatura, como também comportamentais. O alien ficou se chamado “Juca”. A segunda parte termina com um video, em que o Juca é… digamos, pressionado a falar o nome do meu blog:
O video caiu na rede e virou uma espécie de mini-viral, atingindo milhões de usuários no you tube. Só a versão oficial foi exibida mais de 183.000 vezes. Se somarmos todas as dezenas de cópias do video espalhadas nos sites tipo youtube, o numero ultrapassa os milhões.
Com o video, mais pessoas passaram a acreditar que aquilo ali, que eu alegava ser uma coisa ficcional, não era. Muita gente passou a ter certeza de que aquilo era a pura verdade.
A história foi se desenvolvendo gradualmente até que surgiu um cara chamado Gustavo, que tacou o terror no Mundo Gump. Ele poluiu o meu blog com grosserias, criou um blog chamado “O guerreiro da Verdade” para me difamar. A coisa piorou de vez quando ele, obcecado pela ideia de me desmascarar e mostrar que o que eu dizia ser um conto era um caso ufológico real, fez um ataque hacker ao meu blog, tirando-o do ar por mais de uma semana.
OKTPD - E isso não gerou prejuízo?
Claro que sim. De inúmeros níveis, principalmente financeiro. Mas também foi bom, porque os leitores tiveram ainda mais certeza de que tudo era real. As discussões ficaram acaloradas na nossa comunidade do Orkut. Alguns não acreditavam, outros duvidavam, alguns investigavam e muita gente simplesmente acompanhava com estupefação o desenrolar dos fatos. Como alguns já temiam, o desfecho foi trágico.
Gustavo foi sequestrado, desapareceu por duas semanas, a noiva dele ficou desesperada. Gustavo surgiu num video anônimo, sendo espancado, ao lado de fotos dele muito magro, debilitado e só de cuecas numa espécie de barraco tosco.
Logo depois, apareceu uma notícia de jornal falando da morte de Viviane, a namorada dele. Morta a tiros no interior de São Paulo. A coisa ficou feia.
OKTPD – Mas você não ficou preocupado com a coisa das mortes? Quem sequestrou o Gustavo então?
Eu mesmo! O Gustavo era eu, a Viviane era eu, o Vortex era eu e até mesmo eu me comportava de modo estranho com os leitores em chats e sistemas sociais como o Orkut. “O relato de um MIB” foi divertido porque foi o maior desafio literário que eu já me propus a fazer. Teve um dia em que eu escrevia com dois computadores e um notebook. Todos os personagens na minha cabeça, todos logados ao mesmo tempo na comunidade do Orkut batendo boca entre eles. Eu quase fiquei maluco (risos).
OKTPD - E as pessoas, as fotos do Gustavo?
Obviamente que não dá pra fazer algo assim sozinho, então muitos amigos me ajudaram. Um deles foi o Rafael. O Rafael é um biólogo amigo meu, com o qual eu tinha intermináveis conversas, e com o qual, eu pude estruturar toda a questão biológica da criatura. O tipo de respiração, o tipo de tecido, as características químicas peculiares dele. O Rafael também cedeu sua imagem para ser a do Gus. Ele atuou na cena do espancamento, e aceitou posar de cueca para toda a internet ver. Para a namorada do Gus, a Vivi, a minha amiga Denise cedeu a imagem dela.
No background, muita gente me ajudou. Até leitores que descobriram erros me ajudaram, como o Mario. Mas muita gente ajudou. De astrofísicos a geólogos da Petrobras. Até o Gustavo, um amigo meu que é controlador de satélite profissional, deu uma força. O Américo cedeu o espaço, o Celso atuou como um agente da equipe do Vortex… Militares reais também me ajudaram. Mas eu prefiro não falar deles.
OKTPD - É mesmo? Isso se deve ao fato da sua mulher ser militar?
Engraçado isso. Quando eu comecei o Relato de um MIB, ela não era militar. Ela era professora. No meio da história, ela entrou para a Marinha, e olha que legal: acabou cedida ao Ministério da Defesa.
Era um fato irresistível.
Não foi difícil usar o personagem do Gustavo para expor este fato real, que levou uma legião de pessoas a concluir que se minha mulher acaba ligada ao Ministério da Defesa, o filme do alien capturado só pode ser real. Graças a amigos dela, eu consegui uma autorização para filmar as cenas do encontro com o Juca dentro de um bunker real da Segunda Guerra, que fica no interior de um Forte do Exército. No início, eu tive medo de envolver a Nivea na história, mas o realismo que isso deu foi muito legal, porque dava um sentido a um monte de maluquice que o tal Gustavo acreditava. Assim ele passou a não parecer tão maluco. E a história ganhou em densidade.
Obviamente que sem dinheiro, nem equipe ou grandes investimentos, o melhor que eu pude fazer ainda é sofrível em termos de qualidade em muitas partes. Por exemplo, não dava pra pagar um ator, então um amigo meu que é desenhista atuou… Sabe como é. Em alguns momentos eu me pego intrigado como algo tão tosco fez tanta gente pensar que era verdade. A começar pelo vídeo do alien sendo interrogado, que foi de uma certa forma, “feito nas coxas”, mas tem gente que acredita nele até hoje. No youtube você acha várias “análises” que “provam” que o vídeo do alien é real.
OKTPD - Como ele foi feito? Qual o software, etc.
O alien foi modelado no Zbrush, e então a malha foi levada para o 3Dstudio Max, onde foi retrabalhada. As texturas de pele, cerca de uns doze canais diferentes, foi criada no Photoshop. Tudo isso foi misturado para fazer uma aparência realista. Animei no 3Dstudio Max. Mas o interessante é que eu tive que fazer dois aliens, porque depois do primeiro filme, eu perdi o alien quando um HD Maxtor queimou.
OKTPD - E o resultado final?
Eu contei a verdade no final. Era minha obrigação moral de fazer isso. Mas foi divertido enquanto durou. Eu quase pirei, eu provoquei prejuízo financeiro deliberado para mim mesmo, eu criei um belo fusuê e algumas pessoas passaram a ter ódio de mim. Mas enquanto experimento de hyper-mídias, foi sensacional. Eu chamei a coisa de “transrealismo”.
OKTPD – Qual computador você usa?
Na época eu nem lembro. Hoje eu uso um Core i7, com 8gb de ram e 2 Tb de hd.
OKTPD - Você fez algum curso?
Não. Eu sempre gostei de aprender as coisas pela tentativa e erro. Confesso que muito mais erros que tentativas. (risos)
OKTPD- E de escultura?
Também não. Nunca estudei escultura em cursos ou coisa assim. O que eu gosto é de ir para uma biblioteca, achar um livro antigo e estudar o que os caras faziam, fico horas nisso, olhando, aprendendo. É uma coisa intuitiva. Quando eu comecei a esculpir não tinha internet. Eu comecei a esculpir porque queria ir trabalhar na ILM. Essa era minha meta de vida durante toda minha adolescência.
OKTPD - E sua relação com o cinema?
Vem daí. Dos efeitos especiais. Algo que sempre me fascinou. Sempre me atraiu como um ímã. Eu queria fazer aquilo que eu via na tela grande. A coisa começou com “O império Contra-Ataca” e os filmes de fantasia tipo Simbad, que estavam repletos de monstros, animados pelo gênio Ray Harryhausen.
Eu cresci rodeado de boas referências, com Ray Harryhausen na Sessão da Tarde, Star Wars no cinema e quadrinhos diversos, de onde se destacam as revistas importadas como os quadrinhos do Moebius, Bilal e aquele monte de gênio que publica na Heavy Metal.
No Brasil, as grandes influências surgiram do trabalho do Luiz Gê, Angeli e principalmente Laerte, um cara que eu considero muito acima da média. Um ponto fora da curva na questão do talento. Então eu me via trabalhando com efeitos especiais. Eu queria fazer monstros, maquiagens, criaturas… Foi por causa disso que eu resolvi estudar 3d por conta própria. Foi bem antes de surgir Jurassic Park. Eu estava de férias, na piscina do meu prédio, boiando e olhando para o sol pensando na vida. Então tive um insight de que os efeitos físicos iriam acabar. O 3d e a computação gráfica iriam ocupar aquele espaço. Foi algo estranho, como uma ordem expressa para estudar 3d.
Aquilo foi algo tão poderoso na minha cabeça, algo que me impressionou tanto, que saí da piscina, tomei um banho e fui comprar um Cd do antigo 3dStudio para DOS. Não havia livro, não havia nada. A gente aprendia metendo a cara, clicando em tudo que via na tela para descobrir o que aconteceria.
E de fato, o 3d quase matou o efeito físico nos cinemas. Mantive minha meta de trabalhar com efeitos e um dia, aconteceu um convite. Era pra trabalhar por cinco anos na Nova Zelândia. Eu tive medo, pois a Nova Zelândia era o lugar mais longe para onde eu poderia ir antes de começar a voltar. Os caras não diziam qual era o projeto. Apenas falaram que era um filme de “capa e espada”. Recusei. Tive medo de ser golpe, de eu acabar virando escravo sexual. (risos)
Tempos depois, descobri que o filme “capa e espada” era a trilogia “O Senhor dos Anéis”, do Tolkien, dirigida pelo Peter Jackson. Nunca me perdoei por isso. (risos)
OKTPD - Por que não partir para o mercado internacional?
Eu não falava bem inglês. Além do mais, eu (ingenuamente), achava que efeitos especiais decentes só poderiam ser feitos na ILM. Eu estava tão obcecado pela Industrial Light & Magic que não vi a oportunidade passar arriada bem na minha frente. Eu também havia começado a namorar, não estava disposto a largar a garota para ir embora. E até que foi bom, porque estou casado com ela até hoje. (risos)
OKTPD - Há muito tempo você não escreve as aventuras. Suas histórias acabaram?
Não. Não acabaram.
OKTPD – E porque você não tem escrito sobre isso?
É que… Bem, não sei explicar. Eu sinto que não devo colocar tudo de uma vez. É como um tempero raro, se você colocar muito, pode passar o limite e o que era pra ser gostoso fica intragável. As aventuras são uma parte importante do conteúdo do blog, mas ele não é só isso. Ainda há outras histórias para serem contadas nesta categoria.
OKTPD - Pode nos dar algum exemplo de aventura inédita?
Posso. Tem aquela do dia que eu estava fazendo um ET e o vizinho deu um tiro na minha casa. Tem uma a da minha mãe virando o Freddy Krueger… Tem umas bem doidas (risos).
OKTPD – Como é a vida de um blogeiro?
Bom, não sei se sou parâmetro para retratar a vida de um blogueiro, porque não sou um blogueiro em tempo integral como eu gostaria.
OKTPD - Como você lida com trolls, salsinhas e etc?
Eu tento ser educado. Mas sabe como é. Tem hora que não consigo. (risos)
Há na internet um variado leque de estereótipos. Esses são estereótipos comuns no mundo dos blogueiros, pois lidamos diariamente com muita gente e acaba sendo fácil colocar certos tipos de comentários em “padrões arquetípicos”. Existem os paraquedistas, que são pessoas que entram buscando os mais variados assuntos. Esses saem clicando a torto e a direito e raramente leem alguma coisa que não seja o que estão procurando.
O troll é aquele cara que entra pra esculachar, que tenta ser o mais ácido que pode, que traz em seus comentários uma agressividade causticante. Há o salsinha, aquele comentarista que simplesmente é idiota, escreve de forma néscia em um texto quase sempre cheio de miguxês e que não leva nem acrescenta nada. Ser blogueiro é ver isso todo dia.
No Mundo Gump, felizmente, temos muita gente inteligente. Mas os arquétipos são muito variados. Eu não ligo muito para os trolls, mas o ruim mesmo são os spammers. Aqueles que entram para fazer propaganda e tentar se dar bem às custas da audiência alheia. Eles postam comentários que são propagandas disfarçadas daquelas correntes, pirâmides, marketing de rede e todo tipo de coisa oportunista.
OKTPD - Você tem planos para viver apenas do blog?
Tenho sim. Um dia pretendo viver apenas do blog. Mas não sei se conseguiria vivar do blog totalmente, porque eu gosto de fazer varias coisas ao mesmo tempo.
OKTPD – E as esculturas?
As esculturas são um bom exemplo disso. Eu adoro esculpir. Mas nunca faço uma escultura que não caiba na lixeira. (risos)
OKTPD - Qual o próximo boneco?
Estou há algum tempo planejando um boneco que levita de verdade. É um monge. O projeto está parado, porque foi necessário formular uma massa exclusiva para ele. Nesse meio tempo, meu amigo que formula a massa, teve problemas pessoais e este projeto está suspenso por tempo indeterminado. Eu gostaria de retomá-lo. Mas não sei dizer se este será o próximo boneco. Abri um tópico para sugestões lá na comunidade do Mundo Gump, no Orkut, e muita gente já deu boas ideias.
OKTPD - Como você vê o blog no panorama das redes sociais?
Eu acho que as redes sociais complementam o blog. Alimentam, retroalimentam e se integram de formas variadas. Acho válido.
OKTPD - Como isso pode afetar o Mundo Gump?
Afeta diretamente. Por exemplo, o Orkut foi palco do “Relato de um MIB”… Graças às redes sociais, foi possível fazer o leitor conversar diretamente com o personagem. Isso permitiu que os leitores do Mundo Gump vivenciassem a história em uma dimensão de interatividade muito maior. O melhor jeito que eu achei de colocar o leitor na história foi fazer os personagens saírem para o mundo real, e isso só foi possível graças às redes sociais.
OKTPD – Gostaria de dar algum recado ou sugestão para os que desejam criar seus próprios blogs?
Dá trabalho. Mas é gratificante. Eu sugiro aos que pensam em fazer que vão em frente e façam. Mas não se preocupe com fama, com sucesso, com muita audiência. Concentre-se em fazer conteúdo de qualidade. É o conteúdo que manda. O resto é papo furado. Nunca copie o conteúdo alheio. Pois isso te torna a figura mais detestável da face da Internet. O copiador de conteúdo alheio carimba na própria testa sua incompetência de criar. Mas é bom que se diga: copiar é pegar o conteúdo de alguém e não dar o crédito.
OKTPD - Como os quadrinhos afetaram sua produção?
Afetam porque cresci lendo quadrinhos. Junto com o cinema, os desenhos animados, os jogos e tudo mais. Eu adorava, por exemplo, o quadrinho do Conan. Passei muito tempo copiando os desenhos do John Buscema. Eu adorava o personagem de Robert E. Howard. Fui muito afetado pela era hiboriana dos livros dele.
OKTPD - Qual o seu escritor favorito?
Tenho alguns favoritos. Eu acho Machado de Assis muito bom, embora a linguagem seja datada, deixando o texto um pouco difícil de ler. Outro que me inspira é o Ernest Hemingwey. Li e guardei grande admiração pelo Mark Twain e Anthony Burgess que escreveu Laranja Mecânica. Outro autor pelo qual tenho uma forte admiração é Affonso Romano de Sant´anna.
OKTPD - E o Paulo Coelho?
Embora tenha virado uma piada falar que o trabalho dele é ruim, eu gosto do Paulo Coelho. Acho legal o jeito que ele escreve. Acho absolutamente respeitável o sucesso monstruoso que ele faz no mundo. E penso que o melhor livro dele é “O Diário de um Mago”. Eu acho que o cara é muito desrespeitado aqui, na proporção inversa do respeito que ele detém lá fora. É estranho isso. Me parece recalque. Mas pode ser cultural também, já que o brasileiro tem esta mania de eleger certos ídolos e atacar outros. O que me dá pena mesmo é daqueles que batem no peito orgulhosos para alegar que “não li e não gostei”.
Um cara que escreveu a musica Gita, é merecedor de aplausos. Faça chover ou não. Ele diz que é mago, diz que faz chover. Não acredito nem desacredito. Eu respeito. Dinheiro eu sei que ele sabe fazer chover! Tá aí uma magia que eu gostaria de aprender qualquer dia desses.
OKTPD - Fale um pouco sobre o seu livro.
O meu livro se chama O melhor do Mundo Gump. Ele é uma compilação de alguns posts de crônicas, contos e aventuras publicados no Mundo Gump entre 2006 e 2010. Também tem coisa inédita, claro.
OKTPD - É o seu primeiro livro?
Este é o segundo a ser publicado. O primeiro foi um romance histórico chamado “Capitão do mato” que se passava no período colonial do Brasil. Mas não é um troço modorrento do tipo “livro de História da escola” não. O primeiro livro é uma parada frenética, com um capitão do mato, que é uma espécie de caçador de recompensas, perseguindo um escravo foragido na mata atlântica. Na mata, o que temos é o clássico e ancestral arquétipo do predador e da presa. Até que ponto um ambiente hostil faz com que os papéis se invertam e a presa se torne o predador? O livro é nessa linha. Tem de luta com o Saci até gente sendo empalada com uma mandioca! (risos)
O livro do Mundo Gump surge para atender a um pedido dos leitores, pois muita gente não gosta de ler na tela. E muita gente que leu, queria ter o livro na estante, para poder emprestar para os amigos, presentear pessoas queridas, essa coisas. O livro surgiu de uma demanda dos leitores do blog.
OKTPD – O livro traz curiosidades também?
Infelizmente no primeiro livro não. Eu planejo lançar um livro do Mundo Gump só de curiosidades. Mas nessa primeira publicação, ele será de aventuras, contos e crônicas. Não dá pra colocar tanta coisa num livro, porque ele fica grande demais, caro demais. Na primeira versão, ele tinha quase duas mil páginas. Tive que cortar muita coisa, ou custaria uma fortuna.
OKTPD – Então você planeja criar uma coleção?
Depende fundamentalmente da aceitação que o livro do Mundo Gump terá. O que tenho de certeza hoje é que uns dez eu vou vender, que são para os meus parentes diretos. (risos)
Se o primeiro livro do blog der certo, planejo lançar outro até o fim do ano.
OKTPD - Quando e onde será o lançamento?
O livro vai ser lançado no Rio de Janeiro primeiro. Depois, conforme avançarem as negociações, é possível que eu faça um lançamento em São Paulo durante a Bienal. Estou conversando sobre isso com a editora ainda. O que está certo é que no Rio será dia 06 de agosto, às 18h, no Espaço Multifoco, que fica na lapa, Av. Mem de Sá, 126.
OKTPD - É verdade que você está negociando o Mundo Gump com um grande portal? E que portal é esse?
Por enquanto não há nada fechado. Prefiro não falar nada nem especular sobre algo que não está garantido nem assinado.
OKTPD - Você pensa ou já pensou em vender o Mundo Gump?
Pensar eu nunca pensei. Mas já tive uma única proposta séria para fazer isso. Declinei, pois como eu disse, o blog é uma parte de mim. É minha alma exposta ali. Como se vende sua própria história? Vender um blog com tão forte viés pessoal não faz sentido. É melhor o cara anunciar os produtos no meu blog e ganhar dinheiro assim. Ele não precisa comprar o blog todo. Ele compra pedacinhos. (risos)
OKTPD - Gostaria de deixar algum recado para os seus leitores?
Sim. Compre meu livro! Ajude a fazer um blogueiro feliz. (risos)
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